Nelson Maravalhas - A importancia do Quê - a fisiologia da imagem

Pantocrator no País das Maravalhas ou A Pintura como Mitomania

Por ser tão facilmente associada à tradição, uma das saídas estratégicas que se impõem à pintura é a de fazer oposição declarada ao espírito contemporâneo e afirmar o direito ao anacronismo. Proclamar a crença na eternidade e na magia de sua aura, o convívio cotidiano com os fantasmas da história da arte, o culto do médium pictórico em sua glória e putrefação. Valores que retornam à vala comum do kitsch para dela renascer, num ciclo incessante de aniquilamento e redenção.

Nelson Maravalhas pratica várias modalidades de anacronismo. Pode, por exemplo, incorrer ocasionalmente em ações de desagregação dos veículos tradicionais da arte (disciplina contemporânea por excelência), mas de um modo que remete às ciências ocultas e à taxidermia. Ou bordejar o território da arte conceitual, mas recuperando o jogo maneirista do “concetto”, que se comprazia em reunir idéias tidas como inconciliáveis entre si (1). Nada que se assemelhe ao aproveitamento de um patrimônio filosófico prestigioso. Movendo-se entre formas e palavras, manejando figuras de linguagem, Maravalhas reivindica a condição de artista visual “impuro”. Quer manter viva a tradição dos mestres da pintura, sem partilhar a crença modernista na autonomia de sua linguagem (e conservando-se sempre distante dos experimentos abstratos).

A beleza pode surgir de fontes impuras. Baudelaire não se espelhava no “chiffonier”, cuja especialidade é aproveitar o que a mais ninguém interessa e sabe como transformar em ouro os dejetos da cidade? (2) Confiante nos poderes do “objet trouvé”, nosso artista-coletor especializou-se no garimpo das coincidências e encaixes, mantendo sob sua guarda relíquias que foram atravessadas pela força unificadora do mito, pelo poder edificante da fábula (3).

Analisando duas versões de um poema de Hölderlin, Walter Benjamin apontava um período inicial de imaturidade, em que o poeta se referia de modo superficial a elementos mitológicos, e uma etapa madura, em que ele passa a “habitar” o mito, ordem coerente que nada deve a qualquer tipo de justificação exterior (4). Acreditar ou não no mito diferencia pintores “mitômanos” de “mitólogos”. As alusões cultas e exteriores dos últimos indicam ainda descrença e indiferença à realidade do mito. Para os primeiros, a pintura é como o rito de celebração de uma verdade maior, revelada no interior do próprio trabalho. Eles habitam sua crença.

Revoltando-se às vezes contra a condição de espectador das próprias visões e intermediário de forças que o ultrapassam, o pintor-mitômano gostaria de poder reconhecer-se como autor de suas escolhas, construtor e ordenador do mundo que traz à luz. Inquieta-se inutilmente. As obras, quando bem sucedidas, se encarregam de conferir ao ego inflamado, “deus ex-machina”, papel coadjuvante em enredos imprevistos.

Pintura habitada por muitas obsessões, e entre elas, a do esquartejamento. Imagine-se um demiurgo hesitante, postado diante de uma encruzilhada. Incapaz de permanecer muito tempo no limbo da indecisão, sentindo a alma dilacerada, abraça com todas as forças a escolha (invariavelmente) errada, gerando destinos monstruosos. Corpos invadidos por interferências e deformações, membros deslocados, extremidades onde proliferam perturbações... serão estigmas deixados pela hesitação no momento de concebê-los? Como no Greco, assistimos a uma alteração da gravidade dos organismos e mudanças em sua estrutura interna. Costelas trafegam sob paisagens, interiores com cortes cirúrgicos revelam órgãos. Operações de corte realizadas com grande suavidade, aproveitando ao máximo a fluidez do médium e a aderência dos materiais, invocam o suporte imaculado e a clareza de representação. A pintura quer flutuar sobre seu próprio corpo martirizado, encontrar reencantamento em sua trajetória declinante.

O mestiço Maravalhas, licenciado, pós-graduado nos EUA e Europa, perpetua com inescrupulosa serenidade a tradição dos mazombos bacharéis (5). Tendo assimilado bactérias e anticorpos em sua convivência com a “junk culture” e a erudição universitária, escapou até agora à infecção generalizada, graças a uma espécie de fundo comum ensimesmado e cosmopolita, sólida base sobre a qual se assentava desde o início sua produção. Quem diria ainda ser possível explorar, ao longo de toda uma obra, a veia mais delirante e excessiva do surrealismo, e sair incólume?

Instados a reescrever a última frase sentimo-nos obrigados a retransmitir os alertas recebidos sobre o caráter pernicioso desse rótulo (cuja repetição será neste ponto evitada) para o sistema de produção do pintor (6).

Íamos dizendo: quando se persegue de forma tão obstinada o mito em sua especificidade e universalidade, qualquer via é boa e a inocência resiste. O risco é, evidentemente, proporcional ao empenho e sede com que se corre ao pote. Como cantava Bob Dylan: “Yipee! I’m a poet , and I know it/Hope I don’t blow it” (7).

Pedro de Andrade Alvim
Março, 2006

(1) O “concetto” maneirista é definido por Arnold Hauser como sendo “baseado em uma antítese, uma aparente inconciabilidade das representações (imagens) postas em relação”. HAUSER, Arnold, Literatura y Manierismo, Guadarrama, Madrid, 1969, pp. 52,53 e 71.
(2) Veja-se “O Vinho dos Trapeiros”, em As Flores do Mal, e o poema inacabado que deveria servir de epílogo para a segunda edição da mesma obra (1861).
(3) Os “objetos estranhos” descobertos pelo pintor desempenham papel importante na gênese de alguns trabalhos. O que não significa que a obra de N. M. reúna “objets trouvés” em estado puro (cf. MARTINEZ, Elisa de Souza, “Um Re-formador de Imagens”, em MARAVALHAS, N., Interferências, CEC, Brasília, 2005, p.7).
(4)BENJAMIN, Walter, “Deux Poèmes de Friedrich Hölderlin”, Oeuvres, I, Gallimard, 2000, pp. 92-124.
(5)Tradição interpelada por Anísio Teixeira e Oswald de Andrade. Cf. TEIXEIRA, A., “Valores Proclamados e Valores Reais nas Instituições Escolares Brasileiras”, Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, nº86, RJ, 1962, e ANDRADE, O., “Manifesto Pau-Brasil”, Correio da Manhã, 18/03/1924.
(6) Embora seja comum apor como referência ao meu trabalho termos como “fantástico” e “surreal” tal correlação é absolutamente equivocada. Nem histórica nem estilisticamente corresponde aos fatos (Nota do pintor pantocrator NELSON MARAVALHAS).
(7)“I Shall Be Free, nº 10”, Another Side of Bob Dylan, 1964 ("Hurra! Sou poeta, e sei disso/Tomara que não sopre isso para o espaço”).

Abertura: 04 de julho de 2006, às 19h30min - de terça a domingo, das 13h às 21h - até 23 de julho
Visitação: 04 de julho a 06 de agosto, terça a doming, das 13 às 21 horas.
É possível agendar visitas de grupos com até 35 pessoas acompanhados por monitores do Núcleo de Arte-Educação do MASC. A “aula” é gratuita e deve ser marcada com antecedência pelo fone (48) 3953-2324, de segunda a sexta das 13h às 19h.

Exposições, eventos e comunicados atuais do MASC

X Salão Nacional Victor Meirelles

O Museu de Arte de Santa Catarina – MASC – no período de 04 de novembro a 04 de janeiro de 2009, abrirá suas portas para a visitação da mostra das obras selecionadas nesse já tradicional Salão.

X Salão Nacional Victor Meirelles - Sala Especial - Doraci Girrulat.

Doraci se faz acompanhar de obras de 10 ex-alunos que apontam influências de seu labor artístico-pedagógico.

III Ciclo Museu, Educação e Cultura em Debate

III Ciclo Museu, Educação e Cultura em Debate, a fim de problematizar e estreitar as relações museu-escola-universidade. É um espaço de trocas, com enfoque na produção artística e científica de professores de escolas, professores universitários, educadores de museus e pesquisadores.

Exposições, eventos e comunicados anteriores

X Salão Nacional Victor Meirelles - Artistas Selecionados

Confira os artistas selecionados para o X Salão Nacional Victor Meirelles.

GAPF - Grupo de Artistas Plásticos de Florianópolis - 50 ANOS

Entre as 80 obras que farão parte da mostra “GAPF 50 ANOS”, estarão incluídas 26 que fizeram parte da primeira exposição do grupo em 1958, além de jornais, ilustrações e fotografias da época.

Momentos do Acervo

Retomando as mostras de seu acervo, o MASC apresenta dois segmentos da sua coleção: O Núcleo Inicial – 1949/1951 e Doações e Aquisições – 2005/2008.

Antônio Vargas - Série Grotesco

Antônio Vargas é um importante artista que trabalha nas fronteiras da pintura, que faz dialogar com recursos de novas mídias, no caso, a linguagem digital, alargando desse modo, por compenetração, a construção do olhar do espectador e do repertório simbólico da obra.

Paulo Greuel - Exposição Paraíso Tropical

O referencial de Paulo Greuel é o mundo exterior que desloca na fotografia, sua técnica por excelência, até o nível de uma sobre-imagem, também instauradora de sentidos.

Tércio da Gama - 50 anos de pintura

Tércio da Gama é um artista emblemático da cidade de Florianópolis que realiza no MASC a exposição comemorativa de 50 anos dedicados à pintura.

X Salão Nacional Victor Meirelles

Com a intenção de incentivar a produção atual das artes plásticas no Brasil e torná-la acessível ao público, a Secretaria de Estado de Turismo, Cultura e Esporte, a Fundação Catarinense de Cultura, e o Museu de Arte de Santa Catarina, apresentam aos interessados o regulamento da 10ª edição do Salão Nacional Victor Meirelles.

Coleção Gilberto Chateaubriand - Um Século de Arte Brasileira

Depois de ser exibida em São Paulo, Salvador, Curitiba e Rio de Janeiro, chega a Florianópolis a exposição Um Século de Arte Brasileira – coleção Gilberto Chateaubriand. A mostra, promovida pela Fundação Catarinense de Cultura e pela Secretaria de Estado de Turismo, Cultura e Esporte, apresenta uma das mais importantes coleções privadas de arte do país, e vai estar aberta ao público a partir de 09 de maio, no MASC – Museu de Arte de Santa Catarina.

Centenário da Imigração Japonesa no Brasil

Exposição comemorativa do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil. Para compor a mostra, foram convidadas três artistas representantes da cultura japonesa , residentes em Florianópolis: a gravadora Julia Iguti e as ceramistas Marina Takase e Marina Uieara.

Victor Meirelles - Primeira Missa no Brasil

O Museu de Arte de Santa Catarina estará apresentando ao público do Estado a "Primeira Missa no Brasil" exemplar icônico da pintura brasileira, de autoria do artista florianopolitano Victor Meirelles.

Rubens Oestroem - O Espaço Pleno

Pela primeira vez, o Museu de Arte de Santa Catarina abriga uma extensa mostra do trabalho do artista Rubens Oestroem.

Invisibile - Letícia, Lúcia e Maria

Falar da exposição Invisibile é fácil e, ao mesmo tempo, muito difícil. Tão fácil quanto se espelhar no universo destas três artistas: Letícia, Lúcia e Maria. Tão difícil quanto se reconhecer parte desse mesmo universo.

George Peixoto - Peixodelic

A exposição "PEIXODELIC", que encerra a carreira de George Peixoto como publicitário, também ressalta a eficácia e a relevância do design e anuncia um desdobramento do seu trabalho no campo das linguagens visuais.

Luciano Boletti

Dando seguimento ao seu programa de divulgação da arte contemporânea através da revelação de novos e promissores talentos, o MASC expõe no primeiro ciclo de mostras de 2008 uma coleção de pouco mais de 20 trabalhos do artista paranaense Luciano Boletti.

Beta Monfroni

Beta não se interessa em arranjar o mundo, mas em diagnosticar a incerteza irremissível da vida. Ou a imprecisão do destino. A exposição consta de 22 pinturas que pela gestualidade e pela escolha do suporte – o papel – tendem ao desenho.

Centenário Martinho de Haro

Martinho de Haro, ao lado de Victor Meirelles, se destaca como o mais importante artista plástico de Santa Catarina. É o único pintor que, tendo produzido por décadas nos limites de sua terra natal, conseguiu elevar-se como nome maior do modernismo brasileiro, sendo referência obrigatória na história da arte do país, ao par de Volpi, Guignard, Di Cavalcanti e Pancetti.

De dentro pra fora: Mostra do CEART no MASC

A edição deste ano do Festival de Inverno do Centro de Artes (CEART) será realizada, de 11 a 30 de setembro, no Museu de Arte de Santa Catarina.

Ciclo de julho do MASC

O atual ciclo de mostras do MASC abrange três versões que destacamos da coleção permanente do Museu.

Infância: Convite ao reencontro

A curadora Amalhene Baesso Reddig selecionou peças que, de acordo com sua ótica, representam a sintonia com o mundo da infância. Da infância plural e em contínua construção.

Silvana Leal - Todocorpo

A exposição de Silvana Leal consta de 20 imagens inéditas da escritora e fotógrafa que tem como foco de interesse o corpo humano e sua relação com o universo.

Hetty van der Linden - Pintar um futuro

A artista plástica holandesa Hetty van der Linden retorna ao MASC com seu projeto "Pintar um futuro".

Camille Claudel - A sombra de Rodin

Serão vistas dezesseis obras de Camille Claudel, três de Auguste Rodin e ainda um busto de camille por boucher – conjunto que dá a dimensão da importância destes artistas.

Yara Guasque - Eu sou alma pequenina

São desenhos e aquarelas sob papel, de pequeno formato, produzidos ao longo de duas décadas, período que a artista passou a residir em Santa Catarina.

Cléa Espíndola - Passagens

Série de peças de cerâmica que possuem um itinerário que vai da figuração explícita e bem humorada até a ocultante-revelante face da perturbadora concepção tridimensional de formas.

Rótulos - sobre a necessidade de classificar

Na sala Harry Laus, a exposição Rótulos contará com o acervo do MASC (representado por 25 artistas) e Raquel Stolf, artista convidada pelo curador Charles Narloch.

Dircéa Binder - Mantos Cerimoniais

Os "Mantos" de Dircéa Binder inserem-se entre as propostas dos artistas "wearable", caracterizados pelas criações livres confeccionadas de modo artesanal.

Paulo Gaiad - Sobre Papel

Artista plástico comemora no MASC os 20 anos de sua primeira exposição em Florianópolis e revela obras inéditas produzidas recentemente.

IX Salão Nacional Victor Meirelles

A nona edição do Salão Nacional Victor Meirelles está prestes a ser inaugurada no MASC (dia 19 de dezembro, terça-feira, às 20 horas).

Itaú Cultural - Rumos Artes Visuais 2005-2006 - Ausências

Exibição traz um recorte da exposição realizada em São Paulo, na sede do Itaú Cultural. Ausências reúne trabalhos de 28 artistas de todo o Brasil.

Centenário Martinho de Haro

Preparando os eventos culturais que, ao encargo do Museu de Arte de Santa Catarina, terão lugar no ano de 2007 para comemorar o centenário do pintor Martinho de Haro, o MASC inaugurou, no dia 19 de outubro de 2006, a sala especial permanente dedicada ao artista.

Ciclo de exposições de setembro de 2006

Para reabrir seus recintos, o MASC programou três exposições simultâneas. Volume, pintura e fotografia no ciclo de exposições de setembro.

Nelson Maravalhas - A importancia do Quê - a fisiologia da imagem

Por ser tão facilmente associada à tradição, uma das saídas estratégicas que se impõem à pintura é a de fazer oposição declarada ao espírito contemporâneo e afirmar o direito ao anacronismo.

Traços do Acervo Caixa

A Caixa Economica Federal promove a exposição "Traços do Acervo Caixa", no Museu de Arte de Santa Catarina, em Florianópolis.

Amelia Toledo - Entre, a obra está aberta

Amelia Toledo, nome consagrado da arte contemporânea no país, está chegando a Florianópolis para acompanhar de perto a montagem de uma grande exposição.

Hetty Van Der Linden - Pintar um Futuro

Artista plástica holandesa, idealizou o projeto “Pintar um Futuro” com foco nas necessidades das crianças carentes do mundo usando sua ferramenta de trabalho: a arte contemporânea.