Tércio da Gama - 50 anos de pintura

Tércio da GamaPara introduzir essa retrospectiva, parece-me forçoso apelar às reminiscências,  já que presenciei o início da carreira do pintor Tércio da Gama, artista tão representativo da sua geração. E as reminiscências me dizem que tal geração, em Florianópolis, não praticava apenas a arte de desenhar, de pintar, ou de fazer tapeçarias (no caso, de Pedro Paulo Vecchietti). Já instruídos nos embates do movimento modernista que, pela época, ainda oscilava com polêmica entre a figuração e o concretismo, os artistas plásticos catarinenses, tendo como epicentro ideológico e referencial a revista Sul, experimentavam o gosto pela promoção cultural, pela prática da militância, pelo exercício da ilustração, sobretudo de poemas. Foram colaboradores daquela revista pioneira e, na verdade, única entre nós.

O diálogo com os homens de letras era contínuo. Processava-se com consistência. As discussões nunca arrefeciam; as descobertas pessoais eram aventadas, emuladas ou tratadas com reserva.  Van Gogh permanecia o pólo. O referente do horizonte meditativo. O fovismo emprestava-lhes as cores mais ousadas e as combinações arbitrárias que a falta de regras exigia. Por mais que, no decorrer de suas carreiras, se dispusesse a testar mídias artísticas, essa geração permaneceu fiel ao império da pintura. Não só por ser um veículo maleável, mas também, por ser oportuno para o desborde de sensibilidades particulares, para as quais o modernismo possível representava o limite das aspirações.

Não há mistério na pintura que se praticou; apenas o fascínio da cor e o encantamento diante de uma dupla vertente de interesse, a saber,  o clima local e a conquista plástica. Foi assim que Tércio da Gama se destacou. No armazém da história recente da arte foi buscar as regências que, às vezes discrepantes, através de uma consciente vontade artística, haveria de tomar rumos idiosincrásicos e se transformaria em linguagem vigorosa, tônica. Pessoal: foi assim também que ele, ao atravessar tantos interesses expressivos, conseguiu ser fiel a si mesmo. Até chegar à atual “maneira”. Dela faz parte vasta reserva de visão caleidoscópica: a captura de um mundo em plena fragmentação e justaposição de objetos, repertório efusiante e vital: animal, vegetal, folclórico. Freqüentes vezes aglutinados sob a ação da matéria pictórica, cada vez mais densa e “folheada”, sedimentar. E por toques de luz a que não faltam os passes e transpasses, segundo um construtivismo peculiar que lembra o de Klimt. Tércio, artista compulsivo e rápido no gatilho, por outras vezes recorre a uma organização próxima à das engrenagens de um relógio mecânico. Usa a circularidade e os movimentos virtuais giratórios que a compartimentação lhe proporciona, auxiliado por pequenas manchas por assim dizer moleculares. Escapando ao maneirismo e ao decorativo por uma impulsividade que é de fato expressionista, cuja soltura mostra-se irrefreável e ao mesmo tempo regulada, realiza uma pintura de interpenetração, de fusão, próxima a questões que a ciência atual coloca.

Há, também, apesar da matéria pictórica, algo de tecido: mostruário de imagens em que o linear e o pictórico dialogam, quando apresenta insígnias ou mandalas;  formas de ferro forjado, mil flores de pesos de cristal, radiações e relações matemáticas que regem uma inventividade inesgotável de padrões, cortados por listas verticais e relações cromáticas de alta voltagem, a que não faltam acordes paradoxais e  emprego de cores “perigosas” que respondem, por exemplo, às de Beatriz Milhazes. A pintura de Tércio, semelhante aos quebra-cabeças ou às palavras cruzadas, impõe uma decifração lúdica que, ao esconder e ao revelar o lado críptico da natureza, traz à baila um vitalismo que se impõe ao espectador como sugestão alucinatória. Tércio, pintor do fervilhante, pintor da vida.

Expor nessa retrospectiva, cinqüenta anos da sua pintura é tarefa que o MASC encarou como deferência legítima a um dos artistas mais vigorosos e constantes  de Santa Catarina.

João Evangelista de Andrade Filho

Abertura : 26/06/2008, às 19:30h
Visitação:
27/06 a 27/07/2008, das 13:00h às 21:00h, de terça a domingo.

Exposições, eventos e comunicados atuais do MASC

III Ciclo Museu, Educação e Cultura em Debate

III Ciclo Museu, Educação e Cultura em Debate, a fim de problematizar e estreitar as relações museu-escola-universidade. É um espaço de trocas, com enfoque na produção artística e científica de professores de escolas, professores universitários, educadores de museus e pesquisadores.

X Salão Nacional Victor Meirelles - Artistas Selecionados

Confira os artistas selecionados para o X Salão Nacional Victor Meirelles.

Momentos do Acervo

Retomando as mostras de seu acervo, o MASC apresenta dois segmentos da sua coleção: O Núcleo Inicial – 1949/1951 e Doações e Aquisições – 2005/2008.

Exposições, eventos e comunicados anteriores

GAPF - Grupo de Artistas Plásticos de Florianópolis - 50 ANOS

Entre as 80 obras que farão parte da mostra “GAPF 50 ANOS”, estarão incluídas 26 que fizeram parte da primeira exposição do grupo em 1958, além de jornais, ilustrações e fotografias da época.

Antônio Vargas - Série Grotesco

Antônio Vargas é um importante artista que trabalha nas fronteiras da pintura, que faz dialogar com recursos de novas mídias, no caso, a linguagem digital, alargando desse modo, por compenetração, a construção do olhar do espectador e do repertório simbólico da obra.

Paulo Greuel - Exposição Paraíso Tropical

O referencial de Paulo Greuel é o mundo exterior que desloca na fotografia, sua técnica por excelência, até o nível de uma sobre-imagem, também instauradora de sentidos.

Tércio da Gama - 50 anos de pintura

Tércio da Gama é um artista emblemático da cidade de Florianópolis que realiza no MASC a exposição comemorativa de 50 anos dedicados à pintura.

X Salão Nacional Victor Meirelles

Com a intenção de incentivar a produção atual das artes plásticas no Brasil e torná-la acessível ao público, a Secretaria de Estado de Turismo, Cultura e Esporte, a Fundação Catarinense de Cultura, e o Museu de Arte de Santa Catarina, apresentam aos interessados o regulamento da 10ª edição do Salão Nacional Victor Meirelles.

Coleção Gilberto Chateaubriand - Um Século de Arte Brasileira

Depois de ser exibida em São Paulo, Salvador, Curitiba e Rio de Janeiro, chega a Florianópolis a exposição Um Século de Arte Brasileira – coleção Gilberto Chateaubriand. A mostra, promovida pela Fundação Catarinense de Cultura e pela Secretaria de Estado de Turismo, Cultura e Esporte, apresenta uma das mais importantes coleções privadas de arte do país, e vai estar aberta ao público a partir de 09 de maio, no MASC – Museu de Arte de Santa Catarina.

Centenário da Imigração Japonesa no Brasil

Exposição comemorativa do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil. Para compor a mostra, foram convidadas três artistas representantes da cultura japonesa , residentes em Florianópolis: a gravadora Julia Iguti e as ceramistas Marina Takase e Marina Uieara.

Victor Meirelles - Primeira Missa no Brasil

O Museu de Arte de Santa Catarina estará apresentando ao público do Estado a "Primeira Missa no Brasil" exemplar icônico da pintura brasileira, de autoria do artista florianopolitano Victor Meirelles.

Rubens Oestroem - O Espaço Pleno

Pela primeira vez, o Museu de Arte de Santa Catarina abriga uma extensa mostra do trabalho do artista Rubens Oestroem.

Invisibile - Letícia, Lúcia e Maria

Falar da exposição Invisibile é fácil e, ao mesmo tempo, muito difícil. Tão fácil quanto se espelhar no universo destas três artistas: Letícia, Lúcia e Maria. Tão difícil quanto se reconhecer parte desse mesmo universo.

George Peixoto - Peixodelic

A exposição "PEIXODELIC", que encerra a carreira de George Peixoto como publicitário, também ressalta a eficácia e a relevância do design e anuncia um desdobramento do seu trabalho no campo das linguagens visuais.

Luciano Boletti

Dando seguimento ao seu programa de divulgação da arte contemporânea através da revelação de novos e promissores talentos, o MASC expõe no primeiro ciclo de mostras de 2008 uma coleção de pouco mais de 20 trabalhos do artista paranaense Luciano Boletti.

Beta Monfroni

Beta não se interessa em arranjar o mundo, mas em diagnosticar a incerteza irremissível da vida. Ou a imprecisão do destino. A exposição consta de 22 pinturas que pela gestualidade e pela escolha do suporte – o papel – tendem ao desenho.

Centenário Martinho de Haro

Martinho de Haro, ao lado de Victor Meirelles, se destaca como o mais importante artista plástico de Santa Catarina. É o único pintor que, tendo produzido por décadas nos limites de sua terra natal, conseguiu elevar-se como nome maior do modernismo brasileiro, sendo referência obrigatória na história da arte do país, ao par de Volpi, Guignard, Di Cavalcanti e Pancetti.

De dentro pra fora: Mostra do CEART no MASC

A edição deste ano do Festival de Inverno do Centro de Artes (CEART) será realizada, de 11 a 30 de setembro, no Museu de Arte de Santa Catarina.

Ciclo de julho do MASC

O atual ciclo de mostras do MASC abrange três versões que destacamos da coleção permanente do Museu.

Infância: Convite ao reencontro

A curadora Amalhene Baesso Reddig selecionou peças que, de acordo com sua ótica, representam a sintonia com o mundo da infância. Da infância plural e em contínua construção.

Silvana Leal - Todocorpo

A exposição de Silvana Leal consta de 20 imagens inéditas da escritora e fotógrafa que tem como foco de interesse o corpo humano e sua relação com o universo.

Hetty van der Linden - Pintar um futuro

A artista plástica holandesa Hetty van der Linden retorna ao MASC com seu projeto "Pintar um futuro".

Camille Claudel - A sombra de Rodin

Serão vistas dezesseis obras de Camille Claudel, três de Auguste Rodin e ainda um busto de camille por boucher – conjunto que dá a dimensão da importância destes artistas.

Yara Guasque - Eu sou alma pequenina

São desenhos e aquarelas sob papel, de pequeno formato, produzidos ao longo de duas décadas, período que a artista passou a residir em Santa Catarina.

Cléa Espíndola - Passagens

Série de peças de cerâmica que possuem um itinerário que vai da figuração explícita e bem humorada até a ocultante-revelante face da perturbadora concepção tridimensional de formas.

Rótulos - sobre a necessidade de classificar

Na sala Harry Laus, a exposição Rótulos contará com o acervo do MASC (representado por 25 artistas) e Raquel Stolf, artista convidada pelo curador Charles Narloch.

Dircéa Binder - Mantos Cerimoniais

Os "Mantos" de Dircéa Binder inserem-se entre as propostas dos artistas "wearable", caracterizados pelas criações livres confeccionadas de modo artesanal.

Paulo Gaiad - Sobre Papel

Artista plástico comemora no MASC os 20 anos de sua primeira exposição em Florianópolis e revela obras inéditas produzidas recentemente.

IX Salão Nacional Victor Meirelles

A nona edição do Salão Nacional Victor Meirelles está prestes a ser inaugurada no MASC (dia 19 de dezembro, terça-feira, às 20 horas).

Itaú Cultural - Rumos Artes Visuais 2005-2006 - Ausências

Exibição traz um recorte da exposição realizada em São Paulo, na sede do Itaú Cultural. Ausências reúne trabalhos de 28 artistas de todo o Brasil.

Centenário Martinho de Haro

Preparando os eventos culturais que, ao encargo do Museu de Arte de Santa Catarina, terão lugar no ano de 2007 para comemorar o centenário do pintor Martinho de Haro, o MASC inaugurou, no dia 19 de outubro de 2006, a sala especial permanente dedicada ao artista.

Ciclo de exposições de setembro de 2006

Para reabrir seus recintos, o MASC programou três exposições simultâneas. Volume, pintura e fotografia no ciclo de exposições de setembro.

Nelson Maravalhas - A importancia do Quê - a fisiologia da imagem

Por ser tão facilmente associada à tradição, uma das saídas estratégicas que se impõem à pintura é a de fazer oposição declarada ao espírito contemporâneo e afirmar o direito ao anacronismo.

Traços do Acervo Caixa

A Caixa Economica Federal promove a exposição "Traços do Acervo Caixa", no Museu de Arte de Santa Catarina, em Florianópolis.

Amelia Toledo - Entre, a obra está aberta

Amelia Toledo, nome consagrado da arte contemporânea no país, está chegando a Florianópolis para acompanhar de perto a montagem de uma grande exposição.

Hetty Van Der Linden - Pintar um Futuro

Artista plástica holandesa, idealizou o projeto “Pintar um Futuro” com foco nas necessidades das crianças carentes do mundo usando sua ferramenta de trabalho: a arte contemporânea.